quinta-feira, 25 de junho de 2015

A democracia como religião

 


Foi Aldous Huxley em seu conto futurista "Admirável Mundo Novo", que sugeriu que o que chamamos de um axioma - quer dizer, uma proposição que parece evidente por si mesma e para que a aceitemos - pode ser criada para um indivíduo e para um ambiente determinado mediante a repetição de milhões de vezes de uma mesma afirmação. Para este efeito - a gênese artificial de axiomas e dogmas -  propõe a utilização durante o sono, de um mecanismo interativo para falar sem interrupção para o nosso subconsciente, capaz, de durante horas, receber e assimilar qualquer mensagem.

Este projeto está hoje, depois de meio século, muito próximo da realidade, mesmo sem as mesmas técnicas, como sublinhou o próprio Huxley em seu "Retorno ao Admirável Mundo Novo".

Em nosso tempo, a realização mais importante  nesse sentido de métodos de saturação mental, vem sido feito pela mídia de massa, estabelecendo em escala universal o dogma-axioma da democracia. Desta noção – em seu sentido individual e majoritário – se fez a pedra angular da mentalidade contemporânea. Isto é o que Kendall e Wilhelsenn têm chamado de "ortodoxia pública" de nosso tempo. Esta expressão significa para esses autores, o conjunto de bases conceituais ou de fé em que se assenta toda sociedade histórica, elementos que são, por sua vez, as ideias-força para  seus membros e pontos de referência para entender-se em uma mesma linguagem e converter  em última instância, em alguns axiomas e dogmas que só os “marginais” ou “extravagantes” exigiriam fundamentação.

A consolidação do dogma da democracia e sua axiomática foi, é claro, o trabalho de muitos anos, mas agora é que se sabe a sua validade universal. Agora, no final dos anos de 1920, assumiu-se na linguagem política espanhola, na época da ditadura do general Primo de Rivera, que era obrigado a “retornar à normalidade constitucional (ou democracia”). Hoje ela é assumida por todo o mundo, da Europa culta à África, apenas eleições "livres" (sufrágio universal) pode justificar um governo ortodoxo. Qualquer outro governo receberá o rótulo de "ditadura" e se convocará uma cruzada contra ele, após a sua denúncia universal como um violador de "direitos humanos", que constituem a apelação última, coisa que, em outros tempos, ficava sobre o juízo de Deus Uno e Trino. (Há, é claro, certas tolerâncias ou concessões a favor da perfeição universal do quadro: o mundo soviético ou sovietizados e múltiplos sultanatos árabes prescindem da consulta à "opinião pública" e bastante auto-intitulada "popular" ou "democrática"o suficiente para desfrutar de imunidade.)

Não é necessário lembrar que a constelação de princípios que formam a ortodoxia democrática está muito longe da evidência dos axiomas. Além disso, eu acho que vai chegar um momento em que os homens se espantarão de que o governo dos povos - e educação no seio dos homens - tem sido confiada ao sistema de opinião da maioria. Alguns destes princípios são do calibre epistemológico que pode ser visto nas seguintes declarações:

    O poder vem da vontade geral e não reconhece outra fonte de poder.
   

 A vontade geral é identificada com a opinião pública em um determinado momento.

    O voto de todos os cidadãos têm o mesmo valor.

    O conteúdo desse ponto de vista é expresso nos nomes dos candidatos e partidos e slogans eleitorais.

    Os partidos e os seus meios de comunicação de massa são os arquitetos dessa opinião.

De onde, como corolário obrigatório se tem: técnicas de publicidade e influência subliminar (do condicionamento mental, em suma) é o que vai governar os povos.

No entanto, esta série de atrocidades que constituem a "ortodoxia pública" da democracia tem sido admitida até mesmo pela igreja oficial de hoje. Assim, quando na Espanha - ou em qualquer outra democracia - acontece de trupes teatrais representam espetáculos sacrílegos ou blâsfemos com subsídio do governo, os prelados, em sua maioria não dizem nada, porque seu discurso poderia ser interpretada "como uma restrição à liberdade de expressão pública". E aqueles que protestam, não fazem em nome e para a honra de Deus, mas porque, tais espetáculos ofendem a maioria católica do povo espanhol. Ou seja, em nome da Democracia e para sua defesa.

Assim, também, quando as organizações católicas protestam contra a laicização da educação formal e contra as leis de confisco (ou dissuasão) de escolas particulares religiosas, não o fazem já em razão da educação em país católico deve ser católica para todos (exceto aos declarados irreligiosos ou de outras religiões). Limitam-se a defender uns assentos confessionais na grande democracia que formamos; ou seja, para defender os direitos dos grupos católicos que desejam possuir escolas confessionais.

O espírito da democracia liberal tem penetrado a tal ponto na mentalidade de hoje e em sua "ortodoxia pública", que o discurso não-Democrata ou contrário à democracia, ressoa nos ouvidos como uma apostasia  ou blasfêmia. Muitos católicos que recusam o rótulo de socialista ou divorcista ou abortista - que inclusive luta contra essas ideias – não vêm nenhum inconveniente em se declarar democratas ou liberais e militarem em partidos sob essas denominações.

No entanto, uma vez que admitiu a vontade geral como a única fonte de lei e poder - e negou qualquer outra instância imultável de religião - que  lógica poderá opor-se a socialização dos bens ou do ensino, a ruptura do matrimônio, as práticas do aborto ou a eutanásia, se tais projetos ou supostos direitos figuram no programa do partido majoritário? A democracia moderna, com sua ambiguidade e aspecto aceitável é realmente a chave e a porta para todas essas aberrações que se seguem.

E, no campo de males, como no dos bens ou valores, há uma hierarquia que podemos estabelecer, sem mais que recorrer, por via de negação, as Tábuas da Lei. Assim, podemos ver que a socialização dos bens ou do ensino se opõe ao sétimo mandamento (não roubar) e diretamente ataca a família, instituição de origem divina; o divórcio se opõe à mesma instituição e, geralmente, ao nono mandamento (não cobiçar o cônjugue alheio); o aborto e a eutanásia viola o quinto mandamento (não matar) ...

Mas a raiz da democracia moderna opõe-se ao primeiro e mais importante mandamento, que, no qual todos os outros estão resumidos, "Amarás o Senhor teu Deus acima de todas as coisas." Defender a laicização da sociedade (negando-lhe um fundamento religioso) e leis criadas da convenção humana sozinha é equivalente a cortar os laços da sociedade humana com Deus, negar a religião (ou religação entre o homem e o seu Criador). As transgressões daqueles outros mandamentos podem, em alguns casos, ser pecados de fraqueza: somente a transgressão destes é  pecado de apostasia.

Daí o martírio aceito sem hesitação pelos primeiros cristãos em Roma imperial. Eles desfrutavam no seu tempo uma situação de "liberdade religiosa"; ou seja, eles não foram condenados por praticarem sua religião. Um status semelhante ao que outorga a democracia moderna às confissões religiosas, embora com fundamentos diferentes. Os romanos admitiam, em seu politeísmo, adorar todos os deuses. Eles não viam inconveniente em admitir o Deus cristão entre os deuses do Capitólio e em autorizar livremente o culto cristão. Mas, na condição dos cristãos reconhecerem, pelo menos tacitamente, o politeísmo e adorar o Imperador como um símbolo e garantia da religião oficial. E aqueles cristãos que mostravam contrários, preferiam enfrentar o suplício e as do circo do que negar a unicidade do verdadeiro Deus.

Tal situação é para os católicos em um país da Cristandad perante a aceitação voluntária da democracia moderna. Com o agravante de que aqui a situação da liberdade não é baseada em uma concepção diferente de religião, mas uma negação desta, de todas as religiões, que passa a ser então considerado como um assunto privado ou opinião pessoal. Já existe uma falsa religião, um antropocentrismo ou culto ao homem. Hoje não devemos reconhecer o imperador como um deus, mas a Constituição. Certamente que na democracia não se exige de forma tão retumbante essa adoração, e o caso está aberto à interpretação ou "acordos de consciência". Mas para quem essa aceitação não é obrigada, mas ato voluntário através da adesão do sistema ou a um partido, o caso é objetivamente mais grave do que para os cristãos de Roma.

Tais reconhecimentos também se opõem aos dois primeiros pedidos que fazemos no Pai Nosso, a oração que o próprio Cristo nos ensinou: "Santificado seja o teu nome; Venha a nós o vosso Reino." A Democracia Liberal substitui de forma implícita (ou explícita) por "eliminado seja o teu nome; venha a nós laicização, o reino do Homem." E se opõe enfim, aos últimos dois ensinamentos que Jesus Cristo Nosso Senhor nos deixou em sua vida mortal, antes de ser levado ao matadouro: quando a autoridade civil (Pilatos) e religiosa (Caifás), afirma que a Verdade e a autoridade são de origem divina.

A Democracia Liberal é, assim, apresentada em sua verdadeira luz, como a fronteira do mal; aquela linha de demarcação que, transpassada, nos põe para fora "daqueles que pertencem à Verdade"; isto é, passa a fazer parte do reino reino dos que, por aclamação popular, obtiveram a morte de Cristo. O reino que não se fala de verdade ou de autoridade, mas de opinião e povo. Em que os crentes têm seus assentos dentro do pluralismo laicista e vivem pacificamente a sua fé junto a uma apostasia imanente.

Mas acontece que a negação de Deus acarreta inevitável corolário para negação do homem: O que poderá se construir na cidade humana contruida na areia movediça da opinião e do sulfrágio universal? O que deixará para trás a sociedade democrática se o homem serve apenas a si mesmo? Eliminando da raiz o Fim Supremo e a religação com Ele, quanto durará os fins subordinados e uma vida que não conduza ao marasmo do tédio e vícios acumulados? Já é a sociedade que está diante de nós, eminentemente nos países economicamente mais desenvolvidos: a sociedade em que sobram os meios de subsistência, mas falta uma razão para viver.

"Os povos, as civilizações – se tem dito -- são como estranhos navios que prendem suas âncoras no céu, na eternidade." A democracia liberal está consumando  a ruína de nossa civilização e, por contágio, de qualquer outra civilização. Por que a civilização cristã (ou classica-cristã) não está sendo substituída por outra civilização, mas por uma anticivilização ou dissociação que, sobrevive, à custa dos restos distorcidos da cultura original, daquela – hoje combatidíssima -  ordem das almas.

Se evidencia assim que nenhuma concepção de ordem política pode ser mais letal ou aniquiladora para comunidade humana do que a democracia moderna ou "sociedade aberta" (Open Society). Formar uma sociedade sem fé e sem princípios, sem regras estáveis ​​e neutras, desprovido de pontos de referência, dependente apenas da opinião pública e da utilidade do maior número, é como destruir a disciplina de um navio, deixá-lo à deriva. Para onde irá este navio? Que línguagem falará sua tripulação? Como se enfrentará as tempestades? O que justificará a sua unidade e sua existência?

Quando, por exemplo, o presidente da França, ou qualquer outra democracia moderna-apela ao heroísmo da Legião para resolver um conflito armado grave, em nome de quem ele o faz? Com que direito? Se nada existe fora do interesse dos cidadãos e da opinião da maioria? Como exigir a homens e jovens que entreguem tudo o que têm, a sua vida? Apenas por um recurso imoral a normas, crenças e valores permanentes, que a própria democracia nega, poderá recorrer a tais meios de coerção e de sobrevivência.

Caberia uma objeção em nome da universalidade da razão. Se toda sociedade histórica, para sua própria existência e perduração, precisa ter seu sustento em uma fé e fervor coletivo em noções do que é sagrado e é certo, em qual é o sentido do dever e do sacrifício, isto significa que cada civilização é impenetrável intelectual e emocionalmente para aqueles que não fazem parte de sua tradição ou sua herança? Haverá de concordar com as afirmações de Spengler, Toynbee e outros estruturalistas para quem culturas são sistemas fechados, cujo significado é inerente a um sistema de pontos de referência intransferíveis?

Nada autoriza a tal conclusão. A razão é uma instância capaz de penetrar tudo o que é puramente humano e até mesmo, dentro de certos limites, a ordem mesmo do ser. A civilização ocidental tem origem cristã - nossa civilização histórica -  tem sido encarregada de demonstrar na prática esta capacidade da razão. Sua fé - a nossa fé - já foi pregada em todos os cantos da terra e se enraizou, em graus variados, nas mais diversas civilizações. Sua ciência, sua técnica, suas categorias mentais e suas imagens -  de comportamento racional, anti-míticas - se espalharam por todo o mundo, penetrando-lhe em grande parte. Seja como cultura sobreposta, seja como enxerto cultural pode hoje dizer-se que uma só cultura - a ocidental -  é a cultura comum do planeta.

No entanto, paradoxalmente, esta planetarização de uma cultura racional só poderia ser feita por meio de uma civilização determinada – a ocidental – civilização que, como todas,  nasceu de uma fé - ancorada na eternidade -, e foi construída sobre normas, e valores morais. Isto porque, em julgamento filosófico operari sequitur esse, o trabalho segue o ser: nenhuma civilização se expande sem antes existir. E se apenas neste caso, foi possível o efeito de uma difusão de certa forma universal foi, precisamente, porque tal civilização se apoiou originalmente na verdadeira religião.

Na renúncia dessas orígens se encontra a raiz última da crise em que agoniza a sociedade ocidental. Não é circunstancial, mas degenerativa, estendida na forma de rebelião generalizada e, por via de contágio, a outras civilizações, incluindo a própria natureza invadida e contaminada. A expressão dessa renúncia a toda base sobrenatural é a democracia liberal; além disso, a renúncia, a negação de toda a transcendência, a ereção da sociedade do homem para o homem.

Porque essa chamada "sociedade aberta" – a dos "direitos humanos" - ignora o primeiro e mais importante dos direitos do homem, que é a busca da verdade e servi-la, o de fundamentar nela a sua vida e o curso de sua jornada terrena.
 

Fonte: Adelante la Fe: La democracia como religión

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