terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Tempo da Quaresma

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EXPOSIÇÃO DOGMÁTICA.            Pelo jejum e outros exercício de penitência, a Quaresma vai associar-nos ao Salvador de maneira efetiva. Mas não há Quaresma que valha, sem esforço pessoal de retificação da vida e de a viver com mais fidelidade, reparando, por qualquer privação voluntária, as negligências de outros tempos. Paralelamente a este esforço, que exige de cada um de nós, a Igreja ergue diante de Deus a cruz de Cristo, o Cordeiro de Deus, que tomou sobre Si os pecados dos homens, e que é o verdadeiro preço de nossa Redenção. À medida que nos aproximamos da Semana Santa, o pensamento da Paixão tornar-se-á predominante, até chegar o momento de prender por completo a nossa atenção. Já desde o começo da Quaresma, ela nos está presente, e é em união com os sofrimentos de Cristo que o exército vai entregar-se à “santa quarentena”, indo ao encontro da Páscoa com a alegre certeza de partilhar da Ressurreição do Senhor.


“Eis o tempo favorável, eis os dias da salvação.” A Igreja apresenta-nos a Quaresma nos mesmos termos com que apresentava outrora aos catecúmenos e aos penitentes públicos, que se preparavam para as graças pascais do batismo e da reconciliação sacramental. Para nós, como para eles, a Quarentena deve ser um longo retiro, um treino, em que a Igreja nos exercita na prática de uma vida cristã mais perfeita. Aponta-nos o exemplo de Jesus e, através do jejum e da penitência, associa-nos aos seus sofrimentos, para nos fazer participar da Redenção.

Lembremo-nos que não estamos isolados, nem somos os únicos em causa nesta Quaresma, que ora se empreende. É todo o mistério da Redenção que a Igreja põe em ação. Fazemos parte dum conjunto imenso, em que somos solidários de toda a humanidade resgatada por Jesus Cristo. A liturgia do tempo não se cansará de o recordar. Nas matinas de domingos, as lições do Antigo Testamento, continuam a lembrar os largos traços, a história do povo judeu, em que se consignam os desígnios de Deus acerca da salvação de todo o gênero humano: o afastamento de Esaú em benefício de Jacob (não é linhagem terrestre, mas a escolha gratuita, agora estendida a todas as nações, que faz os eleitos); José, vendido por seus irmãos e salvando o Egito, é Jesus salvando o mundo, depois de ser rejeitado e traído pelos seus; Moisés, que arranca o seu povo à escravidão e o conduz à terra prometida, é Jesus que nos liberta do cativeiro do pecado e abre as portas do céu. Os evangelhos não são menos eloquentes: a narrativa da tentação de Jesus, mostra o segundo Adão, novo chefe da humanidade, a contas com as astúcias de Satanás, mas esmagando-o com o seu poder divino; a parábola do homem armado e expulso, por um mais forte, do domínio que usurpara, é ainda afirmação da vitória de Cristo.


Tal é o sentido na nossa Quaresma: um tempo de aprofundamento espiritual, em união com a Igreja inteira, que se prepara para a celebração do mistério pascal. Todos os anos, a exemplo de Cristo, seu chefe, o povo cristão, num esforço renovado, retoma a luta contra a maldade, contra Satanás e o homem de pecado, que cada qual arrasta em si mesmo, para haurir, na Páscoa, um suplemento de vida, renovada nas próprias fontes da vida divina, e continuar a marcha para o Céu.

APONTAMENTOS DA LITURGIA. O Tempo da Quaresma começa na Quarta-Feira de Cinzas e termina so Sábado Santo. Os últimos quinze dias que o precedem foram apresentados para perfazer os quarenta dias de jejum. Do contrário, ficaria apenas trinta e seis, visto não se jejuar aos domingos.

O jejum de quarenta dias, “inaugurado pela Lei e pelos Profetas, e consagrado pelo próprio Cristo”, foi sempre uma das práticas essenciais da Quaresma. A liturgia a ele alude constantemente, e o prefácio do Tempo recorda-o todos os dias.

Mas o jejum irá de par com a oração. Como todos os exercícios penitenciais da Quaresma, é oferecido a Deus em união com o sacrifício do Salvador, diariamente renovado na Santa Missa. Cada dia da Quaresma tem missa própria, devido ao fato de outrora toda a comunidade cristã de Roma assistir diariamente à Santa Missa, durante essa quadra. Daí o indicar-se a “estação”, a igreja em que se celebrava, nesse dia, a missa da comunidade romana.

Todas as missas feriais incluem, depois da pós comunhão, uma “oração sobre o povo”, precedido dum convite à penitência e à humildade: “Baixai vossas cabeças diante de Deus.” O caráter penitencial é acentuado pelo silencio do órgão. Os paramentos são roxos. À 2ª, 4ª, e 6ª feiras repete-se o tracto da Quarta-Feira de cinzas: “Senhor, não nos trateis conforme merecem os nossos pecados...”


Fonte: Missal Romano – Dom Gaspar Lefebvre e os monges beneditinos de Santo André

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