sexta-feira, 14 de abril de 2017

Sexta - Feira da Paixão: Foi crucificado, morto e sepultado.





Pela declaração de “não conhecer outra coisa senão a Jesus Cristo, e por sinal que Crucificado”(1 Cor 2,2), o Apóstolo apregoa a grande necessidade de conhecermos este Artigo e o zelo que os fiéis devem ter em meditarem, o mais possível, a Paixão de Nosso Senhor.

A primeira parte deste Artigo – da segunda falaremos depois – nos propõe a crer que Cristo Nosso Senhor foi crucificado, quando Pôncio Pilatos governava, em nome de Tibério César, a província da Judeia. Fora encarcerado, escarnecido, coberto de toda sorte de opróbrios e tormentos, e finalmente arvorado no madeiro da cruz.


I. Realidade de sofrimento. Ninguém deve supor que a parte inferior da Sua Alma ficasse talvez isenta das torturas. Uma vez que Cristo assumiu, realmente, a natureza humana, força é reconhecer que também na alma sentiu dores fortíssimas. Esta é a razão de ter dito: “Minha alma está triste a ponto de morrer”(Mat 26,38).

É certo que a natureza humana estava unida à Pessoa Divina, mas nem por isso deixou de sentir menos a amargura da Paixão. Era como se tal união não existisse; na Pessoa única de Cristo se conservava ambas propriedades de ambas naturezas. Por conseguinte, o que era passível e mortal, permaneceu passível e mortal; por sua vez, o que era impassível e imortal – como cremos ser a sua natureza divina – conservou essa sua propriedade.




II. Por que indicada à época da Paixão? Porque a notícia de um fato tão importante e tão necessário seria mais acessível para todos, desde que se notificasse a época certa de sua ocorrência. Conforme se lê na Escritura, o Apóstolo São Paulo também a indicou (1 Tm 6,13).

Outra razão era que víssemos, por tais indicações, como realmente se cumpriu a predição de Nosso Salvador: ”Entregá-Lo-ão aos gentios para ser escarnecido, flagelado e crucificado” (Mat 20,19).


III. 1.Escolha do suplício: a) desígnio de Deus. Devemos também atribuir a um desígnio de Deus que Cristo, para morrer, escolhesse o madeiro da Cruz. Foi “para que dali mesmo (nos) renascesse a vida, por onde (nos) tinha vindo a morte”. Com efeito, a serpente que por uma árvore vencera nossos primeiros pais, foi vencida por Cristo na árvore da Cruz.

b) o mais adequado. Nosso  Senhor escolheu tal gênero de morte. Porque Lhe parecia o mais próprio e conveniente para a redenção do gênero humano. Certamente, não havia outro que fosse mais vergonhoso e humilhante. Não eram os pagãos os únicos a verem no suplício da cruz a maior repulsão, infâmia e vergonha; também a lei de Moisés chama de “maldito o homem que pende no madeiro” (Dt 21,23; Gl 3,13).

2. O mistério da Cruz: a) o fato histórico. É necessário que os fiéis entendam o fundo Histórico deste Artigo, tão exatamente consignados pelos santos Evangelistas. Isso fará que os fiéis conheçam, pelo menos, os pontos principais deste Mistério, os que parecem mais necessários para confirmar a verdade de nossa fé. Neste artigo assentam, como que em sua base, a religião e a fé cristã. Estando bem lançado este fundamento, todas as outras verdades se mantêm firmes e inabaláveis.

Buscar nos Evangelhos: (Mt 26, 1-75; 27, 1-66; Mc 14, 1-72;15, 1-46; Lc 22, 1-71; 23, 1-53; Jo 18, 1-40; 19, 1-42).

b) sinal de salvação. Se há o que ofereça dificuldades, ao espírito e ao coração humano, será sem dúvida o mistério da Cruz, que de todos é considerado o mais difícil e impenetrável. Todo esforço é pouco, para chegarmos a compreender que a nossa salvação depende da própria Cruz, e dAquele que foi nela pregado por nossa causa.

c) objeto da Providência. No entanto, o Apóstolo ensina que neste mistério devemos (justamente) admirar a soberana Providência de Deus. Uma vez que “o mundo, com sua sabedoria, não reconheceu a Deus em Sua divina sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação”(1 Cor 1,21). Não admira, pois, que os Profetas antes da vinda de Cristo, e os Apóstolos depois de Sua Morte e Ressurreição, tanto fizessem por convencer os homens de que era Ele o Redentor do mundo, e submetê-los, ao poder e obediência do Crucificado.

d) meios de compreendê-lo: Por não haver nada que se afaste da compreensão humana, como o mistério da Cruz, Deus não cessou, logo depois do pecado, de anunciar a morte de Seu Filho, já por figuras, já pelas predições dos Profetas.

... figuras. Vamos falar de algumas figuras. Representavam antecipadamente, a Paixão e Morte de Cristo Nosso Senhor. Em primeiro lugar, Abel morto pela inveja do irmão (Gn 4, 3-8); depois a imolação de Isaac (Gn 22,1-14); o cordeiro sacrificado pelos judeus, ao saírem do Egito (Ex 12, 1-14; 21); afinal, a serpente que Moisés alçou no deserto (Nm 21, 4-9).

... profecias. Quanto aos Profetas, é por demais conhecido o número dos que vaticinaram sobre o mesmo assunto.

Sem falar de Davi que, nos Salmos abrangeu todos os principais mistérios de nossa Redenção (principalmente nos Salmos Messiânicos que são: 2, 15, 21, 44, 71, 109), distinguem-se, entre as mais, as predições de Isaías. São tão claras e evidentes que, com razão, se nos afiguram ser antes a narração de fatos consumados, do que a provisão de coisas futuras.


IV. Morte de Jesus:

1.  A realidade. Estas palavras nos obrigam a crer que Jesus Cristo, depois de crucificado, morreu realmente, e foi sepultado. Não é sem motivo que aos fiéis se propões essa  verdade, como objeto de fé explícita; pois não faltaram homem que negassem a morte de Cristo no lenho da Cruz.

a) Cristo podia morrer... Ademais, homem que era perfeito e verdadeiro, Cristo podia também morrer, no sentido próprio da palavra. Ora, o homem morre, quando a alma se aparta do corpo. Portanto, com o dizermos que Jesus morreu, queremos simplesmente declarar que Sua Alma foi separada do Corpo.

b) como de fato morreu... Mas, por tal afirmação, não admitimos que do Corpo se tenha separado também a Divindade. Muito pelo contrário. Com fé inabalável confessamos que, depois de separada a Alma do Corpo, a Divindade permaneceu sempre unida, não só ao Corpo no sepulcro, como também a Alma nos infernos.

c) por que morreu? Convinha que o Filho de Deus morresse, a “fim de aniquilar aquele que tinha poder da morte, isto é, o demônio; libertar aqueles que, pelo temor da morte, passavam toda a vida em escravidão” (Hb 2,14).

2. Caráter voluntário: a) ... morreu porque quis. O que houve de extraordinário em Cristo Nosso Senhor é ter morrido, quando Ele mesmo decretou morrer; é ter sofrido a morte por um ato de Sua vontade, e não por violência estranha. Foi Ele mesmo que determinou não só a Sua própria morte, mas até o lugar e o tempo em que haveria de morrer.

Segundo Isaías e suas próprias previsões... Assim, pois, profetizara Isaías: “Foi imolado, porque Ele próprio o quis”(Is 56;7). E antes da Paixão, o Senhor mesmo disse de Si próprio: “Eu dou Minha vida, para que a tome de novo. Ninguém a tira de Mim, mas sou Eu que a dou de Mim mesmo. Tenho o poder de dá-la, e tenho o poder tomá-la de novo”(Jo 10, 17-18).

... quanto ao tempo e lugar . Quando Herodes espreitava a ocasião de Lhe dar a morte, Cristo mesmo Se declarou a respeito do tempo e lugar: “Ide dizer a essa raposa: Eis que lanço fora os demônios, e faço curas hoje e amanhã, e no terceiro dia morrerei. Mas, hoje e amanhã, e no dia seguinte, devo ainda caminhar, porque não convém que um profeta pereça fora de Jerusalém”(Lc 13, 32-33).

b) não sucumbiu por violência alheia, mas pela força de seu próprio amor. Cristo nada fez, portanto, contra a Sua vontade, ou por imposição alheia. Pelo contrário, foi voluntariamente que se entregou a Si mesmo. Indo ao encontro de Seus inimigos, disse-lhes: “Sou Eu”(Jo 18,5). E de livre vontade aturou todos os iníquos e cruéis tormentos, que Lhe foram infligidos.

3. Fruto desta consideração. Quando nos pomos a meditar todas as Suas dores e padecimentos, esta é a circunstância que mais nos devem empolgar o coração. Se alguém tivera sofrido por nós todas as dores, não espontaneamente, mas só por não poder evitá-las, é certo que nesta atitude não veríamos uma mercê de grande valor. Mas, quando alguém sofre a morte só por nossa causa; quando o faz de livre e espontânea vontade, ainda que lhe seja possível esquivar-se, - então é que nos dá realmente uma prova de extrema bondade. Por mais que desejasse, ninguém teria meios de lho agradecer, e muito menos de lho retribuir condignamente. Por tal critério podemos avaliar o soberano e extremado amor de Jesus Cristo, os direitos divinos e infinitos que adquiriu sobre o nosso coração.


V. Sepultura de Jesus:

1. Motivos: Em seguida, confessamos que Cristo foi sepultado. Propõe-se esta parte do Artigo, não porque tenha nova dificuldade, além das que já foram resolvidas acerca de Sua morte. Na verdade, fácil será persuadir-nos de que foi também sepultado.

a) provar a morte real. Acrescentou-se esta circunstância, antes de tudo, para que ficasse acima da menor dúvida a realidade de Sua morte. O sinal mais seguro de um trespasse está, pois, em provar-se que o corpo foi sepultado. Esse fato devia também dar maior realce ao milagre da Ressurreição.

b) declarar que Deus foi sepultado. Conforme o dogma de fé expressos naquelas palavras, não cremos simplesmente que o Corpo de Cristo teve sepultura; mas confessamos antes de tudo que o próprio Deus foi sepultado. De maneira análoga, dizemos em toda a verdade, e conforme a regra de fé católica, que foi Deus quem morreu, e quem nascera de uma Virgem. De fato, assim como Divindade nunca se apartou do corpo, quando encerrado no sepulcro, assim temos também toda a razão de confessar que Deus foi sepultado.

2. O fato como tal:

a) glória da incorrupção. Quanto à maneira e ao lugar da sepultura basta nos ater à exposição dos Santos Evangelhos. Dois fatos há, aos quais deve votar particular atenção. O primeiro é que o Corpo de Cristo ficou no sepulcro perfeitamente livre de toda decomposição, como já havia vaticinado o Profeta: “Não permitires que o Vosso Santo sofra a corrupção”(Sl 15,10; At 2,27-31).

b) em que sentido foi Deus sepultado. O segundo, é que todas as partes deste Artigo, a saber, a Sepultura, a Paixão e a Morte, são atribuídas a Cristo Jesus, enquanto Homem, e não enquanto Deus. O sofrer e o morrer são um quinhão exclusivo da natureza humana. Isto não obstante, enunciamos todas estas coisas também com relação a Deus. Como é evidente, podem ser ditas também daquela Pessoa que, ao mesmo tempo, é Deus perfeito e perfeito Homem.


VI. Meditação da Paixão.

1. Quem sofre? Em primeiro lugar, devemos considerar quem é Aquele que suporta todos esses sofrimentos. Realmente, não temos palavras para explicar Sua dignidade, nem inteligência capaz de compreendê-la.

a) o Herdeiro do Universo. São João diz ser o “verbo que estava em Deus” (Jo 1,1). O Apóstolo designa-O, em linguagem sublime, como sendo Aquele “a quem Deus constituiu Herdeiro do Universo, e pelo qual criou também os séculos; o qual é o resplendor de Sua Glória e a imagem de Sua essência; o qual sustenta o Universo com o poder de Sua palavra”. É aquele que, “depois de dar resgate pelos pecados, está sentado à direita da Majestade nas alturas”(Hb 1, 2-3).

b) o criador e sustentador do mundo. Para dizer tudo numa só palavra, quem sofre é Jesus Cristo, Deus e Homem ao mesmo tempo. Sofre o Criador pelas suas criaturas. Sofre o Senhor pelos seus escravos. Sofre aquele que criou os Anjos, os homens, os céus e os elementos da natureza. Aquele, afinal, “em quem, por quem, e de quem subsistem todas as coisas”(Rm 11,36).

Aplicação. Se Cristo se contorcia, aos golpes de tantos tormentos, que muito se abalasse também toda a máquina do mundo, como diz a Escritura: “A terra tremeu, e partiram-se os rochedos”(Mt 27,51); “toda a terra se cobriu de escuridão, e o sol perdeu sua claridade”? (Lc 23, 44-45). Ora, se até as criaturas mudas e insensíveis prantearam o sofrimento do seu Criador, reconheçam os fiéis com que lágrimas devem exprimir a sua própria dor, eles que são “pedras vivas deste edifício” (1 Pd 2,5).

2. Por que sofre?

a) pelo pecado original. Em seguida, é preciso também explicar os motivos da Paixão, para que melhor apareça a grandeza e intensidade do amor de Deus para conosco.

Quem quiser saber por que razão o Folho de Deus Se sujeitou ao mais cruel dos sofrimentos, verá que, além da culpa hereditária de nossos Primeiros Pais, a causa principal é os vícios e pecados que os homens cometeram, desde a origem do mundo até a presente data, e que os hão de cometer futuramente, até a consumação dos séculos.

b) pelos crimes de todas as gerações. Pela sua Paixão e Morte, o Filho de Deus e Salvador nosso tinha em mira resgatar e destruir os pecados de todas as gerações, e por eles oferecer ao Eterno Pai uma satisfação completa e exuberante.

3. Quem faz sofrer?

a) os pecadores comuns. Sobe de ponto a sublimidade de Sua Paixão, não só porque Cristo sofreu pelos pecadores, mas porque os próprios pecadores foram também autores e instrumentos de todas as penas, pelas quais teve de passar.

Lembra-nos o Apóstolo esta circunstância, quando escreve aos Hebreus: “Considerai Àquele que dos pecadores sofreu tanta contradição contra Si mesmo. Assim não desanimareis em vossas fadigas” (Hb 12,3).

b) os consuetudinários. Devem julgar-se responsáveis de tal culpa aqueles que continuam a reincidir muitas vezes em pecados. Já que nossos pecados arrastam Cristo Nosso Senhor ao suplício da Cruz, todos os que chafurdam em vícios e pecados, fazem de sua parte quanto podem, para de novo crucificar “em si mesmos o Filho de Deus, e cobri-lO de escárnios”(Hb 6,6).

c) os cristãos pecadores. Tal crime assume em nós um caráter mais grave, do que no caso dos judeus; porquanto estes, no sentir do Apóstolo, “nunca teriam crucificado o Senhor da glória, se como tal, O tivessem conhecido”(I Cor 2,8). Nós, porém, que de boca afirmamos conhecê-lO, nem por isso deixamos, por assim dizer, de levantar as mãos contra Ele, todas as vezes que o negamos em nossas obras.

4. por quem foi entregue? Pelo Pai, e por Si mesmo. Pela doutrina da Sagrada Escritura, Cristo foi entregue não só pelo Pai, mas também por Si mesmo.

Deus Pai diz pela boca do profeta Isaías: “Eu O feri, por causa da maldade do Meu povo” (Is 53,8). E pouco antes, ao contemplar, por inspiração do Espírito Santo, o Senhor coberto de chagas e feridas, o mesmo Profeta havia declarado: “Todos nós nos desgarramos à maneira de ovelhas. Cada qual se extraviou para seu caminho errado. E o Senhor descarregou, sobre Ele, a iniquidade de todos nós”(Is 56,6).

Do filho, porém, está escrito: “Quando tiver sacrificado Sua vida pelo pecado, verá uma longa posteridade”(Is 53,10).

O Apóstolo confirma esta verdade em termos mais incisivos, ao mesmo tempo em que nos queria mostrar quanto podíamos esperar da imensa misericórdia e bondade de Deus. Diz Ele: “Não poupou nem Seu próprio Filho, mas entregou-O por todos nós. Como não nos teria dado todas as coisas juntamente com Ele?(Rm 8,32).

5. O que sofre? (O prelúdio do Horto). Foram cruéis o prelúdio da Paixão. De per si, bastaria levar em conta o suor que, do Corpo do Senhor, “corria até a terra em gotas de sangue”(Lc 22,44), quando Ele se pôs a considerar os horrorosos tormentos que pouco depois haveria de sofrer.

Desse fato, cada um de nós já pode compreender como aquela dor atingia o máximo grau de intensidade. Ora, se refletindo apenas os males que O ameaçavam, Jesus Se tomou de tanta angústia como se ver pelo suor de sangue, que não terá sido para Ele a Paixão propriamente dita? Não resta a menor dúvida de que Cristo Nosso Senhor realmente curtiu as maiores dores tanto no corpo, como na alma.

Dores máximas:

a) no corpo... Em primeiro lugar, não houve parte do corpo que não sentisse dores extremas. As mãos e os pés, ei-los fixados com pregos no lenho da Cruz; a cabeça, ei-la ponteada de espinhos e ferida com uma cana; o rosto, ei-lo desfeito de escarros e moídos de pancadas; o corpo todo, ei-lo, enfim, derreado de açoites.

quanto aos algozes... De mais a mais, homens de todas as raças e condições “conspiram contra o Senhor e contra o Seu Ungido”(Sl 2,2). Eram gentios e judeus os que instigaram, promoveram e executaram a Paixão de Cristo. Judas traiu-O, Pedro renegou-O, todos os outros Discípulos O abandonaram.

Quanto à Cruz... Na própria Cruz, que havemos de lamentar mais ao vivo? A crueza das dores, a afronta do pelourinho, ou ambas as coisas ao mesmo tempo?

Não se podia realmente inventar outro gênero de morte que superasse a crucificação, quer em ignomínia, quer em crueldade. Era costume infligi-lo aos maiores perversos e criminosos. A lentidão da agonia na Cruz tornava mais aguda a sensação das dores e torturas que, de per si, já eram sobremaneira violentas.

Quanto à compleição de Seu corpo...  O que fazia acrescer ainda o ardor das penas, era a própria compleição do corpo de Jesus Cristo. Formado pela virtude do Espírito Santo, era muito mais perfeito e delicado do que o pode ser jamais o organismo dos outros homens. Tinha, portanto maior sensibilidade; sofria mais vivamente todas as grandes torturas.

b) na alma:

O maior martírio. Quanto a dor íntima da alma, ninguém pode contestar que Cristo a sentiu em sumo grau de intensidade. Aos Santos, que padeciam dores e tormentos, Deus nunca lhes recusou consolações espirituais, para que pudessem arrostar inabaláveis a violência do martírio.

Muitos houveram, entre eles, que até exultavam de íntima satisfação. De si mesmo dizia o Apóstolo: “Regozijo-me em tudo quanto devo sofrer por vós; e na minha carne completo o que falta aos sofrimentos de Cristo, a bem de Seu Corpo que é a Igreja”(Cl 1,24). E noutro lugar: “Estou cheio de consolação, e transbordo de alegria no meio de todas as nossas tribulações”(2 Cor 7,4).

... sem a menor consolação. Cristo Nosso Senhor não quis, todavia, temperar com nenhum alívio o cálice que bebeu, no amargo transe da Paixão (Mt 26,39; Sl 68,21). Tendo assumido a natureza humana, fê-la sentir todos os tormentos, como se Ele fora puro homem, que não Deus ao mesmo tempo.


VII. Frutos da Paixão:

1. Livra-nos do pecado. Agora, resta apenas expor cuidadosamente as graças e os frutos, que recebemos da Paixão de Nosso Senhor:

Em primeiro lugar, a Paixão de Senhor livrou-nos do pecado, conforme o declara São João: “Amou-nos, e no Seu Sangue nos lavou de nossos pecados”(Ap 1,5). E o Apóstolo diz também: (Deus) vos fez reviver com Ele, perdoou-vos todos os pecados, cancelando e pregando na cruz o título de condenação, que contra nós fora lavrado”(Cl 2,13-14).

2. Livra-nos do demônio. Em segundo lugar, livrou-nos da tirania do demônio. O Senhor mesmo disse: “Eis chegado o julgamento do mundo. O príncipe deste mundo será expulso agora. E eu atrairei tudo a mim, quando for elevado da terra.”(Jo 12,31-32)

3. Satisfaz pelas penas do pecado. Em terceiro lugar, satisfez a pena devida pelos nossos pecados (Rm 5,10; 2 Cor 5,19).

4. reconcilia-nos com Deus. Em quarto, como não se podia oferecer outro sacrifício mais agradável e mais bem aceito aos olhos de Deus, reconciliou-nos com o Pai, a quem aplacou e tornou propício para conosco.

5. abre-nos o céu. Finalmente, destruindo o pecado, franqueou-nos a entrada para o céu, à qual punha embargo a culpa comum do gênero humano. É o que o Apóstolo nos dá a entender com as palavras: “Em virtude do Sangue de Cristo, temos a confiança de entrar no Santo dos Santos”(Hb 10,19).

Na Antiga Aliança, não faltava uma figura deste mistério. Assim, por exemplo, aqueles proscritos, aos quais era defeso repatriar-se antes da morte do sumo sacerdote (Nm 30,25; Js 20,6), eram uma figura dos justos que, apesar de sua justiça e santidade, não podiam transpor o limiar da Pátria Celestial, antes da Morte de Jesus Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote (Hb 9,11). Logo que Cristo a sofreu, as portas do céu de pronto se abriram a todos os que, purificados pelos Sacramentos, possuídos de fé, esperança e caridade, se tornaram participantes da Sua Paixão.


VIII. Valor da Paixão:

1. Satisfação cabal. Todos estes dons divinos nos advém da Paixão de Nosso Senhor. Em primeiro lugar, porque Sua Morte é uma satisfação cabal, e em todos os sentidos perfeita, que Jesus Cristo rendeu a Deus Pai pelos nossos pecados, de uma maneira toda particular. O resgate que pagou em nosso lugar, não só igualava com a nossa dívida, mas era-lhe até muito superior (Rm 5,19-21).

2. Sacrifício agradável a Deus. Em segundo lugar, por ter sido infinitamente agradável a Deus o sacrifício que o Filho Lhe oferecia no altar da Cruz, e pelo qual abrandou inteiramente a cólera e indignação do Pai. Esta é a convicção do Apóstolo, quando nos afirma: “Cristo amou-nos, e por nosso amor Se entregou a Si mesmo, como Vítima de suave odor para Deus”(Ef 5,3).

3. Resgate inigualável. Em terceiro lugar, por ter sido o preço de nossa Redenção, conforme as palavras do Príncipe dos Apóstolos: “Fostes resgatados de vossa vida frívola, que herdaste de vossos pais, não a preço de coisas perecíveis, como o são o ouro e a prata; mas, pelo precioso Sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito”(1Pd 1,18). E o Apóstolo ensina: “Cristo nos livrou da Maldição da Lei, tornando-Se Ele mesmo maldição por nossa causa”(Gl 3,13).

4. Exemplo de virtudes. A par destes imensos benefícios, recebemos ainda outro que de todos é talvez o maior. Naquele padecimento se descobrem os mais brilhantes exemplos de todas as virtudes: paciência, humildade, exímia caridade, mansidão, obediência; máxima constância, não só para sofrer dores, mas até para enfrentar a própria morte, por amor da justiça. Disso nos faz Cristo tal demonstração, que na verdade podemos dizer: Num só dia de sofrimento, Nosso Salvador encarnou em Si mesmo todas as normas de virtude, que de boca nos havia ensinado, durante todo o tempo de Sua pregação.


IX. Última aplicação. Eis, em poucas palavras, o que importa saber da salutar Paixão e Morte de Cristo Nosso Senhor. Oxalá possamos sempre meditar estes mistérios no fundo do coração, para aprendermos a sofrer, morrer e sepultar-nos com Nosso Senhor. Se nos purificarmos então de toda a mancha de pecado, e ressurgirmos com Ele para uma vida nova, seremos , um dia, por Sua graça e misericórdia, dignos de ter parte da glória do Reino celestial (Cl 3,1-4).

Catecismo Romano.


Nenhum comentário:

Postar um comentário