segunda-feira, 7 de julho de 2014

Jesus Cristo em sua obra






Pode-se conceber que propagandistas despidos de grandes dotes possam conseguir adeptos não tanto por suas qualidades quanto pelas ideias que propagam.


Não é a força do propagandista: é a força da ideia.


A que mundo se apresentam, e com que programa!


A um mundo em que o instinto chegara a tal desonra e perversão que, no terreno sexual, atingira, socialmente falando, o máximo rebaixamento. Sobre toda a satisfação do instinto, sobre perversões nem sequer imaginadas, sobre o delírio de todas as inversões, não nos países selvagens, mas em pleno Império que legou ao mundo o direito, a divinização pública do vício, à divinização do  vício com a dedicação de templos públicos àqueles farrapos humanos já prostituídos em público e que eram proposto como exemplo, mantendo-se nos templos a eles dedicados ritos iniciatórios em suas perversões.


A podridão. A idolatria do vício pervertido não só na afetividade como até na inteligência, que se esboroa aos pedaços.


A que mundo se apresentam os Apóstolos!


Ao mundo de milhões de escravos. O escravo era “res”, coisa. Coisa e não homem, coisa a disposição do dono, em tudo.


Coisa que nem dos próprios filhos podiam dispor; eram eles, como seus descendentes, reses de que o dono dispõe seja para vendê-los com lucro para utilizá-los por prazer, seja para feri-los ou matá-los por diversão e gosto.


Ao mundo que tinha o prazer e o gozo como único fim e única sensação.


Ao mundo em que nem  sequer de nome era conhecido o significado de Caridade.


Ao mundo da divinização não somente dos vícios, como da inversão dos vícios.

 ***


E aqueles homens desprezíveis surgem diante desse mundo... pregando que doutrina!


Ao mundo dos Virgílios e Ovídios, dos Cíceros e Demóstenes... apresentam de alguém que morreu justiçado, pregado em uma cruz, escarnecido e atormentado da maneira mais pública e grosseira.


“ A doutrina que pregamos é de alguém que morreu justiçado numa cruz. Trazemos a doutrina de alguém que esteve pregado em um madeiro, com o peito rasgado pelas lanças!...”


Na ordem intelectual, apresentavam uma doutrina com conteúdo de crenças, como da Trindade, da Eucaristia, da Ressurreição... sobretudo o que a humana razão pode por si só compreender.


Na ordem moral, apresentam uma doutrina que é freio e paradeiro de todas as forças instintivas do homem, doutrina que impõe obrigações das mais árduas.


Doutrina que não promete nenhum lucro terreno. Com a predição de atribulações e perseguições.


Estranho programa para arrebatar o mundo a que era proposto.


Mostrar a bem-aventurança na pobreza... aos que cobiçavam e roubavam o alheio!


Mostrar a bem aventurança na mansidão... aos que se compraziam em descarregar violentamente sua ira!


Mostrar a bem-aventurança na justiça... aos que somente conheciam a opressão do fraco e do escravo!


Mostrar a bem-aventurança em ser misericordioso... ao mundo que vivia na satisfação da vingança!


Manter a bem-aventurança em ter limpo o coração... aos que, no paroxismo do vício e da carne, deificaram até as perversões do instinto!


Mostrar a bem-aventurança no padecer e na perseguição por viver santa e justamente... aos que fugiam da dor e do trabalho e atingiram o refinamento do gozo!


Aí tem os senhores a súmula do conteúdo doutrinal original de um judeu justiçado apresentado por vulgares e ignorantes judeus ao mundo do poder e das letras.


 
***


Com desprezo transbordante de ódio, foi recebida pelos grandes gênios e talentos do Império a doutrina do justiçado.


Tácito chamou-a de desoladora superstição, “exitiabilem superstitionem”.


Plínio, escrevendo a Trajando, classificou a doutrina cristã de loucura, “amentiam”.


Conta-nos Minúcio Félix que o retórico africano Frontão tinha o cristianismo por “ furiosam opinionem”, doutrina carente de engenho e cultura, indigna dos gregos e dos romanos.


Foi somente desprezo que encontrou essa doutrina e os Apóstolos com seus seguidores?


Não. Desprezo e tormentos. E que tormentos!


Urgia varrê-la do Império. E força e poder detinha o Império em suas mãos, esse Império que, dominando o mundo, tornou-se seu senhor pelo poder das armas.


Roma dominou impérios, escravizou raças, aniquilou e subjugou povos aguerridos e ferozes. Por que não iria o Império reduzir a silêncio aquela pregação estulta e estólida de judeus desprezíveis e plebeus?


O Império Romano era o mundo todo. O mundo todo no auge do poder e da glória.


Desencadeou-se, tremenda, a perseguição do ano 64, a mando daquele cujo nome passou à história como sinônimo de crueldade: Nero. E durante 249 anos, senhores, com altos e baixos que acontecem nas tempestades marítimas, rugiu aquela tormenta de ódio e de dor contra os cristãos.


Corpos de cristãos, embebidos em pez e resina, arderam como tochas para o capricho de Nero.


Como animais ao matadouro, conduziam-se os cristãos ao Circo e ao Coliseu, para serem atirados às feras.


Domiciano e Diocleciano apuraram o refinamento dos suplícios na dilaceração dos corpos.


Gigantes se erguem contra o Cristianismo: Nero, Domiciano, Setimio, Severo, Décio, Diocleciano, Galério; levantavam-se, senhores, Trajano, Caracalla... e, em seu poder depótico, transbordante de ódio e de rancor, manejam tridentes de ferro que rasgam as carnes dos cristãos, com ossos e entranhas à mostra; lançam mão de instrumentos que, com suas cordas e polés, esticam os membros, que se desconjuntam centímetro a centímetro em todas articulações; usam lâminas e bois de bronze feito áscuas, que fazem creptar a carne de cristãos, ao morrer assados como animais; utilizam pez e fogo que transformam corpos em tochas que iluminam orgias de hienas; dispõe de tenazes que mutilam, laceram, arrancam pedaços de corpos; usam feras cujas garras fazem as carnes em tira e cujas mandíbulas trituram, tal roda de moinho, os corpos dos mártires devorados jorrando sangue, os ossos lambidos e roídos pelos animais saciados.


Eis o Império Romano disposto a esmagar o Cristianismo! Meios é que não lhe faltam!


Quantos cristãos morreram?


Muitos, muitíssimos, sem número... Já dizia uma inscrição daquela época que os mártires foram tantos, “quorum nomina Deus scit” que somente Deus conhece o nome de todos eles...


OBS: É lógico que no ambiente acadêmico com uma corja de pessoas  intelectualmente desonestas normalmente ateus e/ou marxistas, nem sequer menciona esse fato.E tudo que os cristãos sofriam é ensinado em aulas como se eles fosse os que praticassem.


Existiram doutrinas que dispuseram de todo ímpeto que as paixões mais fortes da humanidade encerram, como bem sabem os que estudam história da filosofia. Foram, não são. Passaram, pereceram.


Existiram impérios e nações que dispuseram de gênios na filosofia, de oradores cuja eloquência empolgou multidões, de generais e de exércitos que subjulgaram o mundo. Foram, não são. Passaram, pereceram.


Existiram impérios como os da Síria, que não existe; como o da Pérsia, que não existe; como o do Egito, que não existe; como o da Grécia, o de Roma... existiram!


Que doutrina perseguidas com mortes pelo maior poderio que houve sobre a terra; que a doutrina que, devido a cada uma dessas causas, estava, segundo as leis psicológicas e históricas, fadada a nem começar a se propagar; essa doutrina não só não desaparece, como ainda, com validade ímpar no mundo, difunde-se, propaga-se, perpetua-se.


Escravos tornaram-se cristãos, abraçando a religião que proibia o ódio e santificava a obediência. Fácil teria sido conquistar prosélitos excitando-os à rebelião e incitando à ira.


Homens livres renunciavam a todas as ilusões de uma carreira repleta de honrarias para abraçar a religião cristã, que os conduziriam à miséria e ao martírio.


Senadores, vinculados à casa dos imperadores por laços de sangue, conscientes do que perdiam, e certos da morte que os esperava, não hesitavam em pronunciar publicamente que eram cristãos.


Soldados, como os heróis de Tebas antes de trair sua fé e cometer idolatrias, verteram, cheios de honra e domínio, o sangue pela fé cristã.


Filósofos como Irineu, no fastígio da vida, desfrutando respeitosa ancianidade, morrem valentemente pela Fé.


Jovens e mulheres, Inês, de treze anos, Cecília, de vinte e um,  não temem nem evitam o martírio, quando podiam facilmente evitá-lo.


Roma, atônita, vê surgir das catacumbas, daquelas verdadeiras cidades subterrâneas, não cristãos isolados, mas uma autêntica sociedade de milhares de membros, de todas as castas e posições sociais, de todos os sexos e idades.


No oriente, a vida cristã difundiu-se com tanta rapidez que, em sua maioria, a população era cristã.


Na Ásia, na Grécia, na Macedônia, na Itália, na Espanha, na Bretanha, no Norte da África, por todos os lugares, o Cristianismo se estende e se amplia.


Na Ásia Menor, na Frígia, na Capadócia e no Ponto, a maioria da população já era cristã.


Plínio escreve a Trajano, atônito ao ver a multidão de cristãos que se encontra no seu governo da Bitínia.


À medida que cresce o cristianismo vai dominando as inteligências e os corações não só dos Flávios, Popônios, Acílios e outras ilustres famílias do Império, como também dos escravos... com uma propagação tão rápida e tão firme que, já no século III, havia no mundo mais de 1500 sedes episcopais.


E tanto se estendeu e se arraigou no mundo a vida cristã que, como escrevia o chefe do racionalismo alemão, Adolfo Harnack, “antes de Constantino, a vitória do cristianismo já estava decidida” e Constantino foi, continua, “o homem político, avisado e valente, que soube compreender as exigências e tendências religiosas de seu tempo”. Sua genialidade está em ter visto claro e em ter-se antecipado, com golpe certeiro, ao que já era inevitável.


A vitalidade e a difusão, por todo o mundo, do cristianismo foi o que obrigou Constantino a declarar a liberdade da Igreja.


Atentai bem senhores, queira-se ou não, aí está diante do mundo do século XXI a obra de Jesus Cristo: a Igreja.


E os cristãos chegaram ao mundo... e o Império Romano não existe, senhores, e a Igreja tem vinte séculos de existência.


Amam-na alguns; outros a odeiam e a perseguem; mas, se a odeiam e a perseguem, é porque ela existe.


Um dia disse Jesus Cristo a seu discípulo Pedro: “ tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e os poderes do inferno jamais prevalecerão contra ela” (Mt 16,18).


Como bolhas de sabão que brilham um instante e se desfazem para sempre, assim existiram, na história, os grandes poderes terrenos que, em seu favor, contavam com a herança do sangue, com o poder de seus exércitos, do dinheiro e de seus oradores...


E o grande milagre da história, senhores, está em que a doutrina de alguém que morreu justiçado na cruz, a doutrina que contém em si uma ideologia superior a tudo o que pode ser compreendido pelo entendimento humano, que gosta somente de admitir o que é compreensível;  a doutrina que impõe obrigações que contrariam as fundamentais tendências sensitivo-afetivas do homem; a doutrina que nada promete neste mundo, nem no presente, e que prediz atribulações e perseguições terrenas aos que a abraçam, produziu o milagre de dominar vinte séculos de história e ser o centro da humanidade.


Todas as demais instituições, todas, senhores, desapareceram, somente a Igreja permanece e pode percorrer, um por um, desde o atual Papa, toda a lista dos Sobreanos Pontífices, até chegar ao primeiro, a quem Jesus Cristo disse: “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e os poderes do inferno jamais prevalecerão contra ela”.


As obras humanas, por maiores que tenham sido malgrado todos os meios de que dispuseram, passaram.


A obra de Jesus Cristo, a Igreja, por mais que tenha sido perseguida, presente está em vinte séculos de existência, porque o que é de Deus os homens jamais poderão desfazer.


“Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”(Mt 28,20).


Aqui está, senhores, a única explicação do fato histórico que temos diante de nossos olhos.


Precisamente por ser de Deus, bem se cumpre o que Gamaliel disse aos judeus, em Jerusalém: “Se esta obra vem dos homens ela se desfará por si; mas se vem de Deus, não a podereis desfazer, por mais empenho que nisso puseres” (At 5,38-39).


 
O texto em azul é do blog.


 
Jesus Cristo é Deus? – José Antonio de Laburu, Sj.

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